Início Minas Gerais Ouro Preto Causos e lendas de Ouro Preto: um passeio pelas memórias da cidade

Causos e lendas de Ouro Preto: um passeio pelas memórias da cidade

Lendas e causos são, em geral, histórias passada de geração em geração sem necessidade de uma documentação que comprove os fatos. Contudo, em Ouro Preto, algumas destas histórias ganham ares de realidade. Além disso, várias se misturam com o turismo e os personagens clássicos da cidade.

E elas não apenas fazem parte do imaginário popular como aguçam a curiosidade de visitantes. Neste artigo, você irá conhecer um pouco sobre as principais lendas de Ouro Preto e onde pode vivenciar um pouco da cultura oral da charmosa cidade mineira.

Importante salientar que nenhuma destas histórias precisam de justificativas ou confirmações. Por isso, são envolvidas em um misto de realidade e ficção, tão comum na memória do povo ouro-pretano.

Para conhecer a história da cidade e as as atrações turísticas, como museus e igrejas, leia nosso texto sobre o que fazer em Ouro Preto.

Lendas e causos como resgate cultural em Ouro Preto

“Ouro Preto é um lugar além do túnel do tempo”. Assim se inicia o livro da historiadora Ângela Xavier, que em 2009 documentou os principais causos da cidade. Com o nome de “Tesouros, fantasmas e lendas de Ouro Preto”, Ângela mapeou os principais lugares da antiga Vila Rica e deu nome ao folclore que permeia os mais de 300 anos de sua fundação.

Como um resgate histórico da tradição oral ouro-pretana, o livro permeia desde o surgimento do vilarejo até mesmo a famosa história do Conto do Vigário. Abaixo, separamos algumas que você merece conhecer. Vem conosco!

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As igrejas fazem parte das lendas de Ouro Preto – Foto: Gegeca (CC BY-NC-ND 2.0)

O surgimento de um povoado longe do atual centro histórico

Quem conhece Ouro Preto, pode se perguntar por onde os bandeirantes vindos de São Paulo teriam chegado à cidade. Ainda que a maior parte de visitação esteja nos arredores do Museu da Inconfidência, a história mostra que o nascimento de Vila Rica dista da Praça Tiradentes.

Isso porque na manhã de 24 de junho de 1697, o majestoso pico do Itacolomi surgiu à frente da expedição no dia de São João. E em sua homenagem, ali se construiu a primeira Capela do povoado, próximo à entrada do Parque das Andorinhas.

Para conhecer o local onde Ouro Preto nasceu, é necessário o acesso por outros 3 bairros, além de ser o único ponto de visitação naquelas proximidades.

Galanga: De rei a escravo, de escravo a rei

Conta a história oral que Galanga Muzinga era rei em uma tribo do Congo e foi aprisionado, juntamente com sua família. Em outras palavras: deixou seu reinado em um país distante da África para se tornar escravo em Ouro Preto. Naquela época, aos homens escravos se davam o nome de Francisco. Às mulheres, Maria.

Devido o peso de seu navio, decidiram arremessar todas as mulheres ao mar. Entre elas, a rainha Djalô e a princesa Itúlu, por serem “mercadorias” de menor valor.

Galanga foi comprado pelo Major Augusto no Rio de Janeiro e trazido para Minas Gerais. Além disso, após anos de trabalho, juntamente com o filho, conseguiu a própria alforria a pedido do padre Figueiredo, de quem se tornara amigo. 

Ao saber que seu ex-patrão estava decadente, propôs a compra da mina do Pitangui, com trabalho dobrado. Dessa forma, aos 37 anos, conseguiu comprar a alforria de seu filho Muzinga.

E por conhecer muito bem o local, ainda extraiu 23 quilos de ouro de uma mina praticamente falida. E com isso, comprou a alforria de outros 37 amigos e súditos, transformando a mina em território livre do Congo.

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O próximo sonho foi construir uma capela para Santa Efigênia, onde após sua conclusão, os outros alforriados o coroaram rei. E assim, entraria para história como Chico Rei. A festa de sua coroação inaugurou a tradição mineira do Congado.

E o complexo de minas, ainda hoje, estão abertas à visitação no bairro Antônio Dias, enquanto a Igreja pode ser visitada no bairro de mesmo nome, Santa Efigênia.

A estátua de São Jorge e o assassinato do escravo

Dentre as mais diversas obras de Aleijadinho, uma delas guarda uma lenda peculiar e assustadora. No caso, a estátua de São Jorge. Encomendada pelo governador com tamanho um pouco maior que o natural, ela é cheia de histórias.

Primeiramente, porque conta-se que Aleijadinho moldou o rosto de Antônio Romão, chefe de gabinete, que o teria recebido mal. Isso por causa de seus ferimentos e deformações físicas.

Na procissão de Corpus Christi, São Jorge sairia em público pela primeira vez.

Mas por um susto do cavalo que a conduzia, a estátua tombou e sua lança atravessou o corpo de um escravo. 

Por não saberem a quem culpar, culparam a estátua. E para quem deseja vê-la, até hoje se encontra atrás das grades, no atual Museu da Inconfidência.

Vale lembrar que São Jorge, é um santo da Capadócia. Na famosa região da Turquia há igrejas escavadas dentro de rochas. Para conhecer mais sobre essa região, leia nosso texto da Capadócia.

O único sino que soou na morte de Tiradentes

Segundo dados do Iphan, o sino da capela do Padre Faria pesa 380 quilos, sendo 8 quilos de ouro maciço. Contudo, no dia da morte de Tiradentes, todos os toques em Ouro Preto foram proibidos. Isso porque a um traidor não cabia qualquer tipo de homenagem. 

Porém, conta a história que este sino tocou o dobre de finados naquela data, sem nunca a população saber quem fez tal homenagem.

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Sino de igreja em Ouro Preto – Foto: Denilson Novaes (CC BY 2.0)

Lendas e causos da cabeça de Tiradentes em Ouro Preto

Primeiramente, é importante lembrar que, segundo a história, Tiradentes foi enforcado e seu corpo espalhado em lugares distintos. O motivo, segundo a Corte Portuguesa, era para que servisse de lição a outros possíveis traidores do império.

A cabeça – considerada o troféu maior dos assassinos, foi salgada, e colocada em uma gaiola no alto de uma estaca. A intenção era que ali ficasse, na futura Praça Tiradentes, até que se consumisse.

Contudo, a lenda conta que a cabeça sumiu apenas um dia após sua colocação, criando causos sobre seu paradeiro. Alguns dizem que foi embalsamada e enterrada em local desconhecido.

Outros, que ela teria sido roubada por um monge, que a tirava periodicamente para meditar sobre vida e morte. E numa terceira versão, ela foi levada por uma admiradora, que embriagou o soldado que a vigiava e a furtou.

A verdadeira história nunca se revelou, mas cerca de 200 anos depois, uma réplica – com corpo e tudo – vigia a cidade do alto de seu ponto principal.

O conto do vigário: de lenda à expressão popular

Em quase todo o país, a expressão conto do vigário é utilizada para explicar as trapaças de alguém. Mas poucos sabem que o fato tem origem em um caso conhecido por toda a cidade de Ouro Preto. Aliás, o assunto inclusive tornou-se samba enredo da São Clemente no Carnaval carioca de 2020.

O conto do vigário original teria acontecido no século 18 com duas paróquias que queriam a mesma imagem de Nossa Senhora. São elas: Igreja do Pilar e Igreja de Nossa Senhora da Conceição. As duas, em bairros opostos do centro de Ouro Preto.

Para resolver o impasse, um dos vigários propôs que se colocasse um burro na praça principal. A partir disso, para onde o burro fosse, é onde ficaria a imagem da santa.

Após o burro ir apenas para a Igreja do Pilar, se descobriu que o burro era de propriedade do próprio vigário.

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O conto do vigário é o causo mais famoso de Ouro preto – Foto: Freepik

E você, de qual destas histórias mais gostou?

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